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ALBERT EINSTEIN
A Ameaça de Destruição em Massa

Todos estão conscientes da situação difícil e ameaçadora em que se encontra hoje a humanidade reduzida a uma comunidade com um destino comum, mas poucos agem de acordo com isso. A maioria das pessoas continua vivendo o seu dia-a-dia, meio assustadas, meio indiferentes, observando apenas a fantasmagórica tragicomédia que se desenrola no palco internacional diante dos olhos e ouvidos do mundo. Mas, nesse palco, em que os atores sob as luzes da ribalta desempenham os papéis que lhes foram atribuídos, está sendo decidido o nosso destino de amanhã, a vida e a morte das nações.

Seria diferente se o problema não fosse uma das coisas feitas pelo próprio homem, tais como a bomba atômica e outros meios de destruição igualmente ameaçadores para todos os povos. Seria diferente, por exemplo, se uma epidemia de peste bubônica estivesse ameaçando o mundo inteiro. Nesse caso se reuniriam as pessoas conscientes e especializadas que delineariam um plano inteligente para combater a praga. Depois de haver chegado a um acordo sobre os métodos e técnicas adequados, o grupo submeteria o plano aos governos. Estes mal poderiam fazer qualquer objeção, antes concordariam rapidamente com as medidas a serem tomadas. Certamente não lhes ocorreria tratar do assunto de tal maneira que sua própria nação fosse salva enquanto a nação vizinha era dizimada.

Mas, não poderíamos comparar nossa situação à de uma ameaçadora epidemia? As pessoas são incapazes de ver esta situação em sua verdadeira perspectiva, pois seus olhos estão cegos pelas emoções desordenadas. O medo e a ansiedade generalizados criam ódios e agressividade. A adaptação a objetivos e atividades guerreiras corrompeu a mentalidade do homem. Como resultado, o pensamento inteligente, objetivo e humanitário praticamente não surte efeito, e é até mesmo acusado e perseguido como sendo impatriótico.

Há, sem dúvida, nos campos opostos suficiente número de pessoas de julgamento sadio e com sentido de justiça que seriam capazes e estariam desejosas de colaborar para uma solução das dificuldades pactuais. Mas os esforços dessas pessoas são dificultados pelo fato de que Ihes é impossível reunir-se para discussões informais. Penso nas pessoas que estão acostumadas a tratar objetivamente um problema e que não se deixam confundir pelo nacionalismo exagerado ou por outras paixões. Essa separação forçada das pessoas de ambos os campos é o que considero como o mais sério obstáculo à concretização de uma solução aceitável do problema infamante da segurança internacional.

Enquanto o contato entre os dois campos for limitado a negociações oficiais não consigo ver nenhuma perspectiva para a concretização de um acordo inteligente, especialmente porque as considerações ligadas ao prestígio nacional e a tentativa de usar de demagogia para com as massas forçosamente tornarão quase impossível um programa razoável. O que uma das partes sugere forçosamente é, por esta simples razão, considerado suspeito e até mesmo inaceitável pela outra. Além disso, por detrás de todas as negociações oficiais permanece ainda que veladamente a ameaça do poder nu e cru. O método oficial só pode ter êxito depois que um trabalho preliminar informal preparou o terreno. A convicção de que uma solução mutuamente satisfatória pode ser conseguida tem que antes ser assegurada. Depois disso as negociações reais podem efetuar-se com uma boa possibilidade de êxito.

Nós, cientistas, acreditamos que o que nós e nossos semelhantes fizermos ou deixarmos de fazer nos próximos anos determinará o destino da nossa civilização. E consideramos nossa tarefa explicar incansavelmente essa verdade, ajudar as pessoas a perceber tudo o que está em jogo, e trabalhar, não para acalmar, mas para aumentar o entendimento e conseguir finalmente um acordo entre povos e nações de diferentes pontos de vista.

 

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Extraído do Livro:

ALBERT EINSTEIN - Pensamento Político e últimas conclusões.

Editora Brasiliense - 1983 - pgs. 153 e 154